Cinco razões pelas quais o fracasso de Henry Ford no Brasil ainda importa hoje
Este ensaio foi traduzido por Mariana Sarkis Olson.
Estou de pé na Amazônia, ao lado de Henry Ford. A floresta ao nosso redor—oito milhões de quilômetros quadrados que se estendem por nove países, formados por ecossistemas complexos e repletos de mais espécies do que jamais conheceremos—há muito tempo tem seduzido homens como Ford a explorá-laem busca de ganhos materiais. O escritor brasileiro Alberto Rangel chamou esse lugar de “Inferno Verde” em seus relatos sobre a luta contínua entre a natureza, as comunidades locais e os autoproclamados pioneiros estrangeiros. Quase consigo esquecer a história do capitalismo predatório e suas formas lentas de violência quando me vejo envolvido pela atmosfera bucólica da floresta. Mas então sou interrompido por um trator de 500 cavalos de potência que encharca a plantação de soja próxima com pesticidas, e Henry Ford volta a surgir diante de mim.

Meu novo documentário, Beyond Fordlândia (75 min, 2017), conecta a história da década de Ford no Brasil, em sua busca por um “El Dorado”, à Amazônia que conheço e amo. Hoje, seus habitantes, humanos e não humanos, enfrentam dinâmicas econômicas neocoloniais, exposições tóxicas e um colapso ecológico que podem ser rastreados, de maneiras claras e, por vezes, surpreendentes, até a década de 1920 e ao seu modelo de comunidade agrícola em Fordlândia. O que aprendi ao adotar essa perspectiva de longo prazo é que a violência pode assumir muitas formas e se manifestar em diferentes escalas temporais. A violência também se acumula.
Essa violência é fortalecida pela nossa ignorância. Fiz meu filme para conscientizar sobre processos de exploração que são negligenciados, mal lembrados, reconfigurados, distorcidos ou simplesmente encobertos pelas árvores e esquecidos pela história.
Aqui estão cinco pontos para entender a passagem de Henry Ford pela Amazônia e como sua presença ainda hoje projeta uma longa sombra.
1. Ford sonhava em domar a natureza e o próprio capitalismo. Foi um pioneiro da integração vertical. Na década de 1920, sua empresa já controlava a extração de praticamente todos os recursos naturais necessários para fabricar um carro Ford, exceto o látex utilizado em mangueiras, válvulas e pneus. A ameaça crescente de um monopólio britânico sobre a borracha levou Ford a tentar produzir sua própria matéria-prima. Em 1927, a Assembleia Legislativa do estado do Pará concedeu à sua empresa uma área de um milhão de acres e, rapidamente, teve início a derrubada da mata por meio de queimadas. A fumaça dos incêndios escureceu o céu, e pescadores locais diziam que o calor podia ser sentido na margem oposta do rio Tapajós.
Ford sonhava em domar a natureza e o próprio capitalismo.
Esse foi o início da tentativa de Ford de impor a lógica da linha de montagem ao maior e mais complexo bioma do planeta. Mas, como me disse o historiador Greg Grandin, “o que Ford estava tentando fazer não era exatamente conquistar a Amazônia. Ele tentava conquistar algo muito maior, algo mais indomável.” Ele tentava conquistar o próprio capitalismo.
2. A Ford fracassou porque não compreendeu as comunidades ecológicas. A seringueira, mais comum cultivada no mundo, Hevea brasiliensis, é nativa da Amazônia. Embora as árvores nas plantações de Ford prosperassem no clima, o mesmo acontecia com as pragas e doenças que haviam evoluído ao longo de milênios, acompanhando a espécie. O plantio de árvores muito próximas umas às outras, em campos de monocultura, as tornava mais suscetíveis à infestação. Essa vulnerabilidade foi vista como um golpe de sorte por aqueles que se opunham ao projeto. “Felizmente, os fungos da seringueira são nossos aliados”, me disse Marcus Barros, ex-diretor do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis.
A cantora folk Kate Campbell interpreta sua canção “Fordlândia”, apresentada no meu filme, que revisita a história da aventura de Henry Ford na Amazônia. Gravado no Rose Garden Coffeehouse, em Mansfield, Massachusetts, em novembro de 2009.
3. Apesar do fracasso, muitos brasileiros sentem nostalgia por Fordlândia. Ford abandonou o projeto em 1934. Ainda assim, surpreendentemente, os moradores locais continuam a falar com carinho desse empreendimento efêmero e malfadado. O poeta Carlos Correia, que entrevistou vários daqueles que têm idade suficiente para se lembrar de Fordlândia, descreve essa nostalgia como seu “legado mais cruel”. Em suas memórias, “o sonho americano chegou, mas não ficou, e eles passaram a vida inteira esperando que um dia voltasse”.
4. O sonho de Ford renasceu na soja. Enquanto seu projeto no Pará fracassava, Henry Ford estava de volta a Dearborn, em Michigan, ocupado com sua mais recente obsessão: encontrar usos industriais para a soja. Nos laboratórios da Ford, produtos derivados da soja passaram a ser incorporados à produção de plásticos e esmaltes industriais e até a um protótipo de “carro de soja”.
De volta à Amazônia, a lógica de plantação que Ford introduziu na região permaneceu e logo passou a ser aplicada ao cultivo da soja. Hoje, o Brasil lidera as exportações mundiais do grão, enviando 54 milhões de toneladas para atender a uma demanda que o próprio Ford ajudou a criar. A gigante do agronegócio Cargill, a maior empresa privada do mundo, opera um terminal de exportação massivamente subsidiado no Pará, ameaçando pequenos produtores, povos indígenas e comunidades tradicionais que utilizam a terra para a agricultura de subsistência.

5. Hoje, a agricultura de soja está devastando as florestas amazônicas e envenenando suas populações. A produção de soja, atual e futura, vem deixando um rastro de desmatamento incompatível com a sobrevivência do bioma amazônico. Subindo o rio Tapajós a partir de Fordlândia, na cidade de Santarém, 77 mil hectares de floresta já foram perdidos, e especialistas estimam que outros 500 mil hectares serão desmatados nos próximos cinco anos.
Para controlar pragas e acelerar o amadurecimento da soja, trabalhadores, protegidos por máscaras dentro das cabines fechadas de enormes tratores, pulverizam produtos químicos sobre a plantação. Moradores locais relatam náuseas, dores de cabeça e reações alérgicas nos dias em que inseticidas são aplicados, e muitos manifestam preocupação com os índices de câncer nas comunidades vizinhas às lavouras de soja.

Esta não é apenas uma história ambiental. É a história de pessoas investidas de poder que o exercem contra seus semelhantes. Meu filme se posiciona contra essa violência e essa indiferença, na esperança de conter a perda de culturas e o rompimento dos laços de solidariedade indígena e comunitária provocados por suas ações. Espero que Beyond Fordlândia possa oferecer um paradigma que outros possam utilizar ao examinar novas incursões econômicas no meio ambiente, em qualquer parte do mundo.
Para saber mais sobre os debates centrais e as mobilizações em torno do desenvolvimento sustentável e da coexistência humana com a floresta amazônica, visite a seção Take Action do site Beyond Fordlândia.
Imagem em destaque: Orla de Fordlândia. Foto de Marcos Colón e Bruno Erlan, ©Beyond Fordlândia, 2017.
Marcos Colón é professor na Walter Cronkite School of Journalism and Mass Communication da Arizona State University, onde atua como Southwest Borderlands Initiative Professor of Media and Indigenous Communities. É roteirista, diretor e produtor do documentário Beyond Fordlândia (2017), eleito Melhor Documentário de Conscientização pela World Wildlife Federation no 24º Festival Internacional de Cinema Ambiental (FICMA-Barcelona, 2017), além de premiado no Cabo Verde International Film Festival e no Impact DOCS Awards. É fundador e editor-chefe da revista digital Amazônia Latitude e autor de The Amazon in Times of War (2024). Também é cineasta, responsável pelos documentários Stepping Softly on the Earth (2022). Contato.
Sobre a tradutora: Mariana Sarkis Olson é historiadora, doutoranda em História na University of Wisconsin–Madison e mestre em História pela Universidade Federal Fluminense (Brasil).
You must be logged in to post a comment.